30 Novembro 2010

Etílico: Capitulo 02


Minha cabeça rodava lentamente, fiquei durante um tempo em transe observando o relógio de parede. A cada pulo dado pelo ponteiro que anunciava os segundos eu piscava os olhos tentando entrar em harmonia como uma criança brincando de se esconder dos pais dentro do supermercado. Velava as formigas que há pouco assassinara com gotas do suor que brotavam da minha testa, foi um estranho momento. Foi como se eu fosse Deus e pudesse fazer chover sobre as pessoas aflitas. Foi como se fosse à morte regando a pós-vida de seres inúteis inconseqüentes que não agregam sentimento algum durante sua vil passagem entre os seres vivos.

Notei que estava sendo observado pela garçonete no presente momento em que constatei meu copo vazio sentindo sede, na medida em que meu sangue, tremulo, emitia os desejos de mais algo com o que se divertir. Foi preciso somente levantar a mão esquerda e gesticular para o copo e a garrafa de coca-cola. Acho que já era hora do almoço, pois ela deixou a mesa um cardápio e incrivelmente sem dizer absolutamente uma palavra. Ela estava em sintonia comigo, na mesma freqüência que se encontrava eu e o relógio de parede. No silencio inconsciente e absoluto da razão de tudo o que era lógico. E eu somente, eu e mais ninguém poderia saber do que se tratava aquela castidade sem sons e palavras embebidas em cortesia fútil e egoísta.

Escrevi meu pedido em uma folha de papel guardanapo, pedi fígado acebolado junto de uma dose dupla de vodka em temperatura ambiente e sublinhei o sem gelo. Caminhei até o banheiro e deixei meu pedido sobre o balcão de uma forma que minha interlocutora casta pudesse encontrar. Não tinha papel guardanapo para enxugar as mãos então as sequei no bolso do meu blazer. Rapidamente o lugar foi tomado por pessoas que se assentavam onde houvesse espaço e um pouco de conforto frente à televisão. Minha paz estava sendo fustigada e eu não queria ir embora, não podia voltar, pois ainda era muito cedo e minha mulher provavelmente não estaria em casa. Eu teria que ficar e divagar meu dia entre tantas coisas que me perturbavam alem de conviver algumas horas com pessoas estranhas e seus olhares me observando e julgando e me condenando a morte, provavelmente pela minha decadência bêbada e meu blazer xadrez.

O fígado chegou junto com uma mulher de muita idade, provavelmente uns setenta e cinco anos, e que não usava avental que acredito ser uma ajudante nos horários de pico. Um cheiro forte de desodorante daqueles que só sentimos quando entramos pela primeira vez em um bordel. Estava tudo tão bem tirando as pessoas falantes, algumas já estavam de palitos nos dentes. O copo parecia estar envolto em gordura assim como o prato e os talheres e não sei se já era tudo assim ou se foi devido ao enorme nojo e incomodo criado pela presença da velha. Porque a garçonete não me atendeu? Estava tudo tão bem até poucos minutos atrás. Tive que virar o copo de vodka para então empunhar o garfo até minha boca. Não consegui, não fui capaz de provar a comida e minha única saída foi sabotar aquela refeição. Com rapidez pude jogar sobre o prato alguns pelos que arranquei do peito e os vi afundando sobre o fígado acebolado. Eu precisava vencer só não sabia como reclamar, maldita velha. Esperei um tempo para que a garçonete pudesse passar pela minha mesa e quando se aproximou levantei ligeiramente meu braço, ela atendeu prontamente caminhando com preocupação, me olhou e sorriu, eu usei o garfo e retirei um dos pelos fazendo com que a moça arregalasse os dois olhos e se acanhasse pela deselegância da situação. Fez um gesto que não entendi, acho que ela deve pensar que sou surdo-mudo, e logo voltou com outro prato e uma dose dupla de vodka. Na comanda escreveu, “cortesia”. Senti naquela hora uma enorme festa entre meus demônios comemorando o resultado de uma façanha estúpida. Valeu a pena, nada de gordura, somente um delicioso sabor de sangue cozido concentrado e cebola e com certeza algumas lagrimas, da velha.

Após terminar o prato rapidamente a velha veio e retirou a mesa me olhando com a compaixão de quem sente pena e ódio ao mesmo tempo. Ela sacou e eu entendi perfeitamente que ela enxergou os demônios acorrentados ao redor do meu corpo cochilando com a barriga cheia de ódio esperando a liberdade pela próxima vez. Ela sabe que não sou surdo-mudo, sabe que os pelos não vieram lá de dentro. Ela poderia me denunciar e eu ser linchado como um animal ou como um Judas em dia de santo pelos clientes que estavam sentados numa mesa lateral ao balcão, provavelmente eles eram operários de uma madeireira que tinha ali por perto e eram amigos da velha, pois sempre sorriam e brincavam com ela cada vez que esta lhes servia. Levantei postei minha mochila sobre a mesa e sai para a calçada fumar um cigarro e desta vez, com o copo na mão, porém não senti receio algum. Estava por demais concentrado no absoluto vazio que queria causar em mim. Estava em busca de um ponto-zero, inicio da vida fetal, uma regressão ao marco inicial da minha existência. A velha que vá se foder.


1 comentários:

erikissima!! disse...

Bastante instigante a leitura do seu texto, não tem como não se interessar pela continuação.

Qual o próximo pensamento? Por que ele continua casado? Por que ele esta ali? Por que ele não quer falar? Por que tantas manias?

Aguardando as cenas dos próximos capitulos...

beijos