-Pois não!
-Uma dose de pinga com limão num copo grande e uma coca-cola em garrafinha, por favor.
Esse será meu ultimo dialogo dentro deste bar, pensei entre tantas outras coisas que corriam dentro da minha mente. Era apenas nove horas da manhã e não sei por que entrei ali. Estava limpo, pude ver que os azulejos eram daqueles que formam um estranho desenho azul quando se juntam quatro peças. Meu pedido chegou com três minutos de atraso em relação aos outros botecos que costumo frequentar. Deve ser assim para que possam cobrar a taxa de serviço e eu pense a respeito antes de reclamar para que não se torne uma reação deselegante da minha parte. Misturei a coca com a pinga na medida em que eu costumo apreciar, ficou boa. Eu dedilhava mentalmente uma canção do Radiohead e tentava lembrar o nome, mas não conseguia. Bebi um vasto gole que deixou o copo pouco menos da metade, era um daqueles long-drink em que nos bares mais requintados serviam Sexy on the Beach e Mojitos. A balconista ou garçonete, seja lá qual a função daquela mulher, percorria todo o salão do bar oferecendo sugestões aos poucos clientes sentados em suas mesas. Por um momento rezei para algum Deus que não a deixasse se aproximar, pois estava psicodelicamente impossibilitado de manter qualquer que fosse um mínimo de troca de palavras com outro ser da minha espécie. Mesmo que para me servir. Eu não preciso de alguém me perguntando se eu desejo mais alguma coisa. Simplesmente peço e já é o suficiente saber que caso esteja insatisfeito, levantarei minha mão direita.
Eu queria me afastar do mundo por alguns minutos, algumas horas. Precisava me abastecer de pensamentos refletivos que pudessem levar minhas idéias para outros lugares. Não queria simplesmente beber minha pinga com coca em vão, seria um desperdício me embriagar sem saber ao certo que rumo eu deveria seguir durante as próximas horas. Meu telefone tocou, não sei quem era, senti a perna vibrar e permaneci oculto para quem quer que fosse do outro lado da linha tentando contato. Acho que franzi as sobrancelhas, não queria ser incomodado por absolutamente nada que não fossem meus pensamentos intransitáveis e inúteis. Eu estava tímido ali sentado como se fosse uma criança abandonada pelo pai. Estava bebericando o resto da vida enquanto o ponto de ônibus permanecia cheio dela. Estava na nona de Beethoven e nada mais poderia me ajudar a entender o que era aquele momento. Queria fugir para dentro de mim mesmo sentindo tudo passar vertiginosamente enquanto me masturbo escondido do mundo para só depois permanecer quieto.
Não notei que já tinha terminado minha bebida há vários minutos atrás. Eu me encontrava num estado sóbrio das coisas, estava tudo tão pálido ainda. Os azulejos em seus lugares, as pessoas em suas mesas e a garçonete num vai e vem por entre o salão. Levantei minha mão. Estendi para o alto meu braço direito como numa proclamação a independência pelo desejo e toda miséria da minha vida. Não foi preciso ouvi-la, ela apenas sorriu e logo me trouxe outra garrafa de coca-cola e uma dose de pinga com limão num copo long-drink. Pude sentir um momento de admiração, acho que ela me entendia tanto quanto entedia. Só precisava tirar aquele avental xadrez e algumas obturações e pronto, logo se casaria e deixaria de servir os vícios de outros que não fossem os do próprio marido rosnando a próxima lata de cerveja.
Queria ir fumar, deixei minha bolsa sobre a mesa como num gesto de confiança para que a garçonete não pensasse que eu iria sair sem pagar. Minha aparência estava legal, não que isso possa ser levado em consideração, vestia um terno xadrez marrom sobre uma camisa branca dos Stooges, calça social preta e um tênis All Star azul. Acendi meu cigarro e logo na primeira tragada senti uma tontura, acho que era fome. Eram apenas dez da manhã e somente duas cuba-libre de cachaça. Observava as pessoas transitando pela calçada em frente ao boteco. A maioria mulheres. Questionava-me sobre o que elas estavam pensando naquele momento. Que roupa usaria quando chegar à hora da festa, o que fazer para o jantar, qual lingerie usar para a sacanagem com o namorado ou o que fazer para evitar o marido obeso a chamando para o sexo logo mais naquela noite. Fazia tempo que eu não transava, a ultima vez foi com Odete. Uma mulher que exaltava a própria estupidez e que não conseguia falar sobre outra coisa que não fosse sobre o sonho de um dia se tornar a melhor vendedora de cosméticos do bairro onde morava. Adquiri a mania de ligar para ela sempre que necessitava espairecer minha libido, ela por sua vez, marcava apenas o horário. Mesmo que ela percebesse que brutalmente eu a ignorava, agia como se tudo estivesse normal, como uma simples transa em decorrência a ambas necessidades. Sabia que eu era casado e que minha mulher embora fosse um espantalho da hora de transar comigo, provavelmente agia como uma vagabunda com o home pela qual vinha mantendo seu caso extraconjugal. Odete me fez enxergar a muito tempo atrás que eu estava sendo traído, avistava de longe os chifres plantados em minha cabeça. Odete era minha única mulher e ia embora assim que eu acendia um cigarro, até que nunca mais liguei e ela nem sequer notou minha ausência.
Havia muita luz e isso me irritava ali dentro daquele bar. Bem que eles poderiam fornecer um lustre individual para cada cliente, cada qual dono da sua própria luz. Cada um dominando sua própria existência.
Permanecia calado observando a garrafa de coca-cola e declamando poesias sobrenaturais sobre o maldito capitalismo, era eu em meus momentos Rimbaud do século vinte e um. Era eu e mais ninguém para me tirar da própria inquietude. Era eu brincando de inquisidor enquanto queimava as formigas sobre a mesa com meu isqueiro. Era eu, assassino de mim mesmo e qualquer outra definição seria pura bobagem durante aquele momento.
1 comentários:
Gostei do seu texto, vc escreve maravilhosamente bem, dá curiosidade em saber quem é, por que é, por que é tão amargo. Vou acompanhar!
beijos
Te amo
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