02 Dezembro 2010

Etílico: Capitulo 03



Queria saber o que as pessoas pensam enquanto caminham pela calçada. Queria um poder sobrenatural que me deixasse escolher alguém e acompanhar seus pensamentos. Não acredito que estaria invadindo a privacidade ou ferindo a moral até porque somente eu saberia e jamais revelaria seus segredos muito menos o dom de espionar pensamentos alheios. De qualquer forma eu acreditava que seria possível se me esforçasse e fiquei ali em pé sobre a calçada frente ao bar observando e tentando penetrar na mente de quem se afixasse no ponto de ônibus. Por um momento quase consegui. Era um homem de média idade que usava um horrível chapéu marrom e fumava cachimbo, era obvio que ele estava tentando ser diferente, pois seus lábios não pareciam de um piteiro e também não o vi cuspindo no chão. Ele pensava que estava despertando certo interesse para uma mulher morena de cabelos curtos que provavelmente iria pegar o ônibus com ele, talvez fossem amantes ou amigos e talvez ele precisasse impressioná-la para atingir seus objetivos imorais. Era pura sacanagem toda aquela pose, seu chapéu e o cachimbo fétido no meio dos lábios. Lembrei de Odete e sua ausência de carinho e paixão por mim, era pura sacanagem apenas.

Meu silencio estava cada vez mais absoluto ao mesmo tempo em que meu desejo era de subir no alto de um prédio e gritar, esmurrando completamente a face de Deus, colocando-o frente à minha parede e questioná-lo sobre toda sua insatisfação com o mundo. Gostaria somente de lhe passar um breve sermão pra que ele ficasse esperto e dizer que não éramos mais os seus brinquedos, somente isso e nada mais.

Ainda tinha dinheiro suficiente na carteira para passar três dias sem me preocupar em ir ao banco e enfrentar a fila do descaso e ter que ser obrigado em engolir a mulher do caixa enrolando um fio de chicletes no dedo me olhando com uma cara de puta a espera de um fatídico orgasmo. Novamente empunhei meu braço e lá estava ela sorrindo e pronta em servir o meu pedido, colocar na mesa minha fuga e não me aporrinhar com palavras programadas pelo seu gerente. Não vi mais a velha sebosa e talvez devesse ter ido a CIA ou a Interpol, me entregar, tentar uma recompensa em caguetar um larápio tentando comer sua comida de graça. Era eu quem devia ligar para um sanatório e internar o resto da sua vida ali para que nunca mais pudesse emitir gestos e sorrisos amarelados pelo tempo que passou em descuido da própria opinião.

Passou um homem vendendo balões e algodão-doce. Foi fatal para que pudesse vir à tona algumas lembranças, coisas do tipo de quando somos crianças e sentimos vontades e desejos por algo não alcançado. O homem dos balões entrou e pediu um copo com água o balconista negou e disse que só poderia vender e lhe sugeriu uma garrafa de água mineral. O homem dos balões modificou o semblante para uma expressão de receio, mas aceitou a água e pagou algumas moedas por ela. Quando criança meu pai me negava à maioria dos luxos infantis e tinha de me contentar com os brinquedos que eu construía a partir das folhas de um velho caderno ou jornais antigos que abasteciam um velho criado mudo no porão. Aos nove anos eu contabilizava um carrinho de madeira, uma caminhonete puxa-puxa feita de lata de óleo, um boneco do Falcon, uma lousa mágica, um carrinho de controle remoto, um puzzle dos personagens Disney, um kit de bonecos apaches e cowboys, um vídeo-game usado e uma fantasia do Super-man. No meu décimo aniversario ganhei uma caixa de sorvetes e cinquenta cruzeiros para investir no meu estoque inicial e o sermão de que eu já não era mais uma criança.

Acenei para o homem e lhe dei uma nota de cinquenta ele brilhou os olhos para mim e me entregou todos os balões. Amarrando-os na segunda cadeira em minha mesa. Senti-me feliz, pai de mim mesmo. Eu sendo meu primogênito, genitor da minha alegria.

Olhava para os balões com os olhos cheios de fantasia, retirei meu caderno e comecei a escrever pequenos bilhetes. Os balões seriam o serviço de Sedex entre eu e Deus. Eram vinte bilhetes e eu comecei então a traçar um plano de envio. Precisa pensar em algum lugar onde nada poderia interceptar meus recados. Um local aberto sem prédios e rede elétrica, então decidi que seria no parque do Ibirapuera. Imediatamente acenei para a garçonete e gesticulei pedindo a conta e após trazê-la, paguei minha despesa e lhe deixei uma boa quantia como gorjeta.

Passei por uma galeria, uma espécie de mini mercado municipal e comprei uma garrafa de rum jamaicano e segui caminhando rumo ao parque com meus balões e os bilhetes para Deus dentro do bolso do meu blazer. Entre um gole e outro no rum eu imaginava a cara dele ao ler meus bilhetes. Duvido que ele tenha coragem de responder a um único sequer. Eu sorria sarcasticamente enquanto perambulava pelas ruas, porém estava completamente incomodado com a quantidade de pessoas que circulavam entre eu, meus balões e minha garrafa de rum. Eu precisava chegar logo ao parque enviar os malditos bilhetes e retornar ao bar e seguramente acenar para que a garçonete me traga outra bebida.

Consegui chegar ao parque em poucos minutos. O sol enrugava meu rosto e o receio maior era de que algum balão estourasse assim não seria possível enviar exatamente os vinte bilhetes e isso me causaria a sensação de ser incompleto já que eram vinte balões e tinha escrito um para cada. Dessa forma seria vinte correspondências para dezenove balões e isso sim não seria coincidência.

Escolhi um lugar bem calmo onde eu pudesse tentar enxergar uma possível rota para a jornada dos meus balões. Fui amarrando os bilhetes e soltando um por um. Agora não tinha mais volta e Deus saberia que eu estava ali o desafiando a responder questões que provavelmente o deixaria com as bochechas rosadas.

“Prezado Deus espero uma resposta curta e objetiva de você.

Porque pés descalços enquanto outros calçam Nike e porque a pinga se o uísque é muito mais em filmes de faroeste e ficção cientifica?

At.

Glauber Assis”



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