19 Fevereiro 2011

Etílico: Capitulo 04

Aproveitei o sol que latejava em minha nuca e após ter enviado os bilhetes, me joguei por cima da cabeluda grama num canto qualquer do parque e por ali permaneci alguns minutos pensando e tentando imaginar o que faria se tivesse êxito em minha missão com Deus. Resolvi que era melhor me levantar e ir embora. Já estava me sentindo humano demais e logo chegaria uma terrível náusea e não queria isso, não mais. Ainda tinha rum o suficiente, mas eu queria voltar ao bar, queria ficar ali atuando em minha novela interpretando um esquizofrênico surdo-mudo para aquela garçonete que a tão pouco me servira já sabia ler a minha alma e lamber meus pensamentos.

Sei lá, comecei a correr desesperadamente pela calçada da rua, olhando para trás, a cada cinco segundos, com a esperança de que alguém pudesse clandestinamente estar por ali me seguindo. Acendia um cigarro após o outro e na medida em que todos os poros do meu corpo ofegavam, eu tentava gritar algumas palavras como fudeu caralho ou puta que pariu, mas não conseguia sequer mexer os lábios que não fossem para rolar o cigarro de um canto ao outro da boca. Eu podia ver os olhos apavorados das pessoas por quem eu cruzava. Era como se o assassino estivesse atrás de mim apoiado em um fuzil ou uma foice daquelas usadas por bóias-frias em usina de cana-de-açúcar. Minhas pernas doíam, para ser mais preciso, minhas canelas flamejavam um ardor descomunal. Eu não conseguia controlar a situação. Sentia que meu coração estava a poucos minutos de explodir e tingir meu blazer com sangue.

Ninguém me seguia, foi tudo pura frustração e eu era apenas um bêbado correndo entre um tropeço e outro pela calçada. Odete me fazia falta já minha esposa o que eu mais queria era poder assassiná-la de uma forma exageradamente sádico sem que isso meu custasse a pena de morte perante a sociedade e alguns anos de xadrez. Ela escolheu foder com outro cara sem sequer saber o quanto isso iria custar para o que restava de sentimento dentro de mim. Um ménage oculto foi o que ela causou. Meus pulmões quase que por um momento cessaram-se e pude sentir a sensação que acredito ser a mesma de quem sofre um infarto. O bar já estava próximo e a garçonete também. Quanto à velha se estivesse ainda por lá eu iria saber conduzir a situação. Será que Deus leu ao menos uma das minhas cartas? Será que Odete ainda treme as pernas por mim?

A questão é, vinte e sete dias desempregado tendo que mentir para uma mulher que trepa comigo como se fosse uma velha beata enquanto age como se fosse a supra meretriz do nosso vizinho técnico de enfermaria, que acredito ser um enorme viado. Vinte e sete dias enchendo a cara ora com banho outra sem, fedido, embebido em álcool e desempregado enquanto aquela vadia nem sequer notou tais detalhes pútridos Sabe mais, acho que sou mesmo o palhaço daquela musica do Silvio Caldas.

Parei em frente a uma igreja onde estava tendo uma sessão de alguma coisa, talvez uma rave pelo tamanho barulho e gritaria. Acho que não cai muito bem para uma igreja infestar seu interior com tamanha gritaria. Se eu fosse um irmão de fé gostaria de ir me encontrar com Deus e não com o diabo, pois a meu ver uma grande parte parece ser o precipício para o inferno e ali era exatamente igual. Parei em frente à porta e só para sacanear gritei que era eu o deus vivo e ordenava que parassem de gritar. Fui excomungado dali, pois o que eles querem mesmo é sangue e eu não estava a fim de ser queimado por uma salva de palmas daquela multidão de jovens e velhos pastores. Eu ri pra cacete, eu estava completamente bêbado.

0 comentários: